Fundada no início do domínio romano, Tiberíades é uma cidade do norte de Israel cujo nome foi dado em homenagem a Tiberius Cæsar, imperador que governava Roma na época da crucificação de Jesus.
No entanto, o chamado mar de Tiberíades é, na verdade, um grande e lindo lago de água doce localizado entre as fronteiras de Israel, Jordânia e Cisjordânia, conhecido também como Mar da Galileia e Lago de Genesaré.
Curiosamente, há mais de dois mil anos atrás, nas águas tranquilas da margem ocidental desse lago, Jesus poderia ser visto – sentado dentro de um barco típico do primeiro século – ensinando a sua doutrina para dezenas de pessoas que permaneciam de pé na areia.
“E outra vez começou a ensinar junto ao mar, e ajuntou-se a ele grande multidão; de sorte que ele entrou e assentou-se num barco, sobre o mar; e toda a multidão permanecia em terra junto ao mar.” [Mc. 4.1]
Nesse dia, segundo Marcos, estava Jesus ensinando a multidão quando, sendo já tarde, decidiu zarpar e atravessar o mar.
“E, naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes: Passemos para a outra margem.” [Mc. 4.35]
Na antiga cultura hebraica, o mar – em sua simbologia religiosa – era visto como um lugar pavoroso e repleto de perigos. No livro de Daniel, por exemplo, os poderes demoníacos assumem a forma de monstros e bestas-feras que surgem das águas.
Neste sentido, o mar representa o caos, um lugar de temporais, de instabilidade, de desafios, lutas e incertezas.
“E levantou-se grande temporal de vento, e subiam as ondas por cima do barco, de maneira que já se enchia de água.” [Mc. 4.37]
O ser humano é determinado por sua finitude. Sendo assim, não é raro que sinta-se abandonado à sua própria sorte, quando ameaçado por poderes destrutivos que podem levá-lo ao estado de desespero.
A grande tempestade conduziu os discípulos de Jesus a esse estado de conflito inevitável. E não devemos interpretar esse conflito como apenas um problema de ordem psicológica. O desespero é muito mais que isso: ele é o limite da condição humana que não deve ser ultrapassado.
Desta forma, não é na morte que o ser humano chega ao fim de suas possibilidades, antes, sua linha final é marcada pelo desespero. Durante o temporal, Jesus dormia sobre uma almofada na popa do barco e foi acordado por discípulos desesperados!
“[…] Mestre, não te importa que morramos?” [Mc. 4.38]
A experiência nos mostra que ninguém está imune a dor e ao sofrimento. Todo ser humano estará diante de algum tipo de aflição nesta vida.
E, independentemente do que ou de quem seja responsável por isso, algumas adversidades podem nos sobrevir de maneiras mais brandas, controláveis e suportáveis; enquanto outras podem nos atingir de formas muito mais intensas, incontroláveis e insuportáveis, ultrapassando todos os limites de resistência de uma pessoa normal.
Quando não bem compreendida, a questão da quietude divina pode provocar feridas profundas; especialmente na alma de quem, em tempos de angústia, como água se derrama e clama em busca de um livramento – para si ou para um ente querido – e recebe como resposta um longo e pedagógico silêncio de Deus.
“E ele, levantando-se, repreendeu o vento e a fúria da água; e cessaram, e fez-se grande bonança! E disse-lhes: Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé?” [Mc. 4.39-40]
A simbologia é clara: o fato de Jesus permanecer em “silêncio“, “dormindo“, não significa que ele tenha se ausentado da situação. Nas águas tranquilas do lago ou em meio a turbulência do mar, Jesus permanece integralmente no barco.
Indiscutivelmente, Deus continua administrando o cosmos e organizando o caos. Portanto, na justa medida da fé, cabe ao ser humano tanto a consciência da sua total dependência do Criador, quanto a plena confiança Nele.
“Nenhum pardal cai em terra sem o consentimento do Eterno.” [Mt. 10.29]



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