Nenhum ser humano tem como propósito de vida a infelicidade. Portanto, ninguém jamais deveria assumir o mal como opção; antes, toda pessoa deveria escolher o bem e sempre considerar que as escolhas individuais transbordam para além da individualidade impactando, direta ou indiretamente, toda uma rede de relacionamentos.
O autor do livro de Rute, um dos cinco rolos da terceira divisão da Bíblia Hebraica, relata que um rico mercador chamado Elimeleque, para evitar a pobreza e a fome, decidiu sair de Belém de Judá com sua família e se estabelecer em outro lugar.
Assim, este homem abastado partiu com sua esposa Noemi e seus dois filhos, Malom e Quiliom, para a terra de Moabe, uma região a leste do Mar Morto.
“E sucedeu que nos dias em que os juízes julgavam, houve uma fome na terra; por isso um homem de Belém de Judá saiu a peregrinar nos campos de Moabe, ele e sua mulher e seus dois filhos.” [Rt. 1.1]
Elimeleque era o chefe de uma família de modelo patriarcal que, além de fazer valer a sua autoridade em casa, tinha como responsabilidade básica adquirir o alimento e garantir a segurança da sua esposa e de seus dois filhos.
Segundo a tradição judaica, ele decidiu viver em Moabe para evitar a dilapidação do seu patrimônio, em consequência da crise que se instalou em Judá no período de 1375 a 1050 a.C., uma época que foi também marcada pela apostasia: Israel estava abandonando suas convicções religiosas e a sua fé; cada um fazia o que bem entendia, não se importando com as consequências de suas atitudes. [Jz. 17.6; 21.25]
De fato, é no exercício da sua liberdade finita que o ser humano se faz, se refaz e se realiza como tal. Sem liberdade poderíamos ser qualquer coisa, menos seres humanos.
A vida é feita de escolhas e são elas que configuram o nosso jeito de ser e de habitar neste mundo. Fazer as escolhas certas não é uma tarefa fácil, mas precisamos aprender a escolher.
Depois de quase dez anos vivendo nos campos de Moabe, e já estando mortos o marido e os filhos, Noemi resolveu voltar para Belém.
Volta levando consigo uma das suas noras, Rute; enquanto na alma carrega todas as dores que tornaram a sua vida amarga e vazia. Contudo, ela se abstém de responsabilizar alguém por toda sua dor e sofrimento; prefere resignar-se e aceitar tudo como um determinismo divino.
“Assim, pois foram-se ambas, até que chegaram a Belém […] Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-poderoso. Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar; por que, pois, me chamareis Noemi? Pois o Senhor testifica contra mim, e o Todo-poderoso me tem afligido tanto.” [Rt. 1.19-21]
Sim, cabe ao ser humano fazer a escolha certa. Todavia, entendemos que há escolhas que aos olhos humanos parecem ser a melhor opção de vida, e que no final se revelam como caminhos de dor, sofrimento e autodestruição. Porém, isto não nos isenta da nossa cota de responsabilidade.
O ônus da liberdade é a responsabilidade, portanto, temos que responder pelas decisões que tomamos, temos que assumir as consequências das escolhas que fazemos. Não devemos simplesmente transferir a nossa responsabilidade para alguém, nem mesmo para Deus.
“Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam.” [Dt. 30.19]



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