O texto base das nossas considerações encontra-se em Gênesis 4.1-8. Trata-se do relato do fratricídio, originário no pós-Éden, cometido por Caim contra seu irmão Abel.
Caim e Abel entram na história bíblica quando seus pais, Adão e Eva, já haviam saído do Jardim do Éden. Longe das delícias do Paraíso, Adão passou a lavrar a terra e dela tirar o alimento para o sustento da família. Caim, o primogênito, tornou-se, como o pai, lavrador da terra. Mas, Abel decidiu ser pastor de ovelhas.
Algum tempo depois, os irmãos intentaram apresentar a Deus, numa modalidade ritual arcaica, os resultados de seus trabalhos. Então, Caim apresentou uma oferta do fruto da terra. E Abel, dos primogênitos das suas ovelhas e da sua gordura.
Aconteceu que Deus, voltando-se para Abel e para a sua oferta, não atentou para Caim e nem para a sua oferta. Diante disso, Caim irou-se fortemente e abateu-se o seu semblante. Deus, então, admoesta Caim e o previne do perigo que ele se encontra. E Caim conta o episódio ao irmão.
No entanto, um dia, estando Caim e Abel no campo, levantou-se Caim contra Abel e o matou, derramando o seu sangue sobre a terra.
Esta narrativa bíblica é apresentada numa linguagem mítico-religiosa, demandando a interpretação de seus símbolos. Neste sentido, propomos o fratricídio cometido por Caim como uma representação da violência do ser humano contra o seu semelhante.
A violência entre seres humanos é uma triste realidade evidenciada em todo o mundo e em todos os tempos. Portanto, simbolicamente falando, o sangue de Abel continua sendo derramado.
No dia a dia, somos afetados/as por estímulos que provocam sentimentos e emoções que agitam o nosso coração, aflorando aquelas fronteiras, entre o bem e o mal, que sempre dividem e compõem a unidade multidimensional da natureza humana.
“Porque o bem que eu quero fazer, não faço, mas o mal que não quero fazer, esse eu faço.” [Rm. 7.19]
Em um de seus Salmos mais conhecidos, Davi convoca tudo o que há [קֶרֶב, kereb] nele, para bendizer o santo Nome do Eterno [Sl. 103.1]. O desejo de Davi, por reunir as “partes” do seu eu, aponta para o conflito existente dentro de todo ser humano: o ser Eu-Caim, ou ser Eu-Abel.
Indicamos Caim e Abel como símbolos das sementes do mal e do bem; e o campo, como símbolo do coração humano. Assim sendo, estas duas sementes são semeadas no coração do ser humano e permanecem à disposição de impulsos, internos e externos, que possam efetivá-las.
Então, a semente que for bem regada brotará e se tornará uma frondosa árvore frutífera. Neste ponto, uma questão se levanta e devemos respondê-la de forma intimista: Qual destas sementes foi regada hoje?
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.” [Pv. 4.23]



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