O esperado eclipse das religiões – em razão da ascensão das democracias seculares, dos avanços do conhecimento científico e do saber tecnológico – não ocorreu.
Na atualidade, o que vemos é o crescimento progressivo de sociedades plurirreligiosas, onde as comunidades de fé seguem o fluxo habitual de suas experiências religiosas, influenciando crenças e acastelando convicções.
De fato, vivemos e morremos por aquilo que acreditamos. E as crenças religiosas exercem grande influência na formação das diferentes visões de mundo, alimentando questões e ideias que muitas vezes aproximam ou dividem os seres humanos.
Habitamos em um mundo permeado por muitas crenças e, portanto, não devemos ignorar o que as pessoas creem. Saber em que acreditam e porque acreditam possibilita a existência de um diálogo mais leve, concordando ou discordando sem sermos desagradáveis.
O pano de fundo desta reflexão é o encontro de Jesus com uma mulher samaritana. A narrativa encontra-se no capítulo 4 do Evangelho de S. João.
De acordo com o texto bíblico de referência, Jesus estava na Judeia com seus discípulos e decidiu voltar para Galileia. No entanto, ele segue por um trajeto que os judeus evitavam: o caminho por Samaria.
A razão dos judeus desviarem-se de Samaria era a existência de uma relação de rivalidade e hostilidade que perdurava entre eles e os samaritanos desde os tempos de Oséias, o último rei de Israel [722 a.C.]; e, obviamente, Jesus não desconhecia isso.
Sob o sol escaldante do meio dia, Jesus e seu grupo chegam à Sicar, uma cidade de Samaria, onde se encontra o poço de Jacó. Os discípulos marcham para comprar alimento na aldeia e deixam Jesus descansando, sentado, junto ao poço.
Ao voltarem, os discípulos se maravilham de que Jesus estivesse dialogando com uma mulher. Eles sabiam que um rabino sequer podia saudar uma mulher em público. E falar em público com aquela samaritana poderia ser o fim da sua reputação.
“Todavia, nenhum lhe disse: Que perguntas? Ou: Por que falas com ela?” [Jo. 4.27]
Não sabemos o que Jesus falou aos discípulos no caminho para Samaria. Mas, podemos imaginar a influência das suas palavras na transformação do modo de pensar deste pequeno grupo de judeus que com ele chegou em Sicar.
Pois, se os judeus nem mesmo se comunicavam com samaritanos, muito menos cogitariam comprar qualquer tipo de alimento em alguma aldeia samaritana sem que algo houvesse mudado.
Por esse viés, precisamos admitir que os discípulos, ao aceitarem seguir por aquele caminho com o Mestre, permitiram-se rever suas perspectivas religiosas.
Passar por Samaria, metaforicamente falando, é uma grande oportunidade para iniciarmos diálogos fraternos e respeitosos com pessoas que pensam diferente de nós.
É necessário passar por Samaria! [Jo. 4.4]



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